quinta-feira, outubro 30, 2008


História Local - Crónicas de Elvas - nº 36- IV Série in Linhas de Elvas , edição de 30 de outubro de 2008 - O tempo da Monarquia esgotava-se na manhâ de 5 de Outubro de 1910, mas só pela tarde , pelas 17.00 em Elvas se davam os primeiros vivas à República, enquanto que José Júlio de Alcântara nos Paços do Concelho hasteava a Portuguesa, iniciava-se assim uma nova era na vida política de Elvas, após um período de prosperidade que marcou quase décadas entre 1860-1880, de tal forma que em Elvas ser republicano não significava ser propriamente contra a Igreja ou contra a Monarquia no seu verdadeiro sentido, mas sobretudo contra o clima de corrupção que marcou o final do regime monárquico em Portugal. É nesse contexto que os primeiros momentos da causa republicana se registam já em plena década do século XX, apesar de alguns escritos de matriz republicana registados em dois periódicos locais a Democracia (1869) e a Democracia Pacífica (1884). Elvas continuava a abraçar a causa monárquica, o Partido Progressista era um dos pilares do Distrito de Portalegre e o movimento militar do 31 de Janeiro de 1891 era observado pelo jornal de maior circulação na cidade de Elvas como um acto reprovável " Repuna-nos o facto de vermos militares utilizarem as armas destinadas à defesa da Pátria em benefício das crenças, pessoas querendo assim impor a força das ideias que julgam preferíveis". Na classe política local, pontificava os vultos de referência do Partido Progressista não faltando algumas figuras que não viam com "bons olhos" a política centralista de João Franco. Todavia a 12 de Março de 1908 era constituída a primeira Comissão Republicana em Elvas, liderada por Júlio de Alcântara Botelho oriundo de uma família da aristocracia elvense, próxima do Partido Regenerador, que acabaria mais tarde quando a I República seguia os caminhos da instabilidade política por defender a política de autoridade e de ordem, proposta pelo Doutor Major Sidónio Pais. Enquanto abraçou a causa republicana dirigiu os destinos da Câmara Municipal de Elvas em 1911 e em 1919, mas a sua vida foi pautada pelo humanismo e solidariedade indiferente aos sistemas políticos, a prova mais evidente foi sem dúvida a sua doação de parte significativa da sua fortuna pessoal ao Albergue Elvense dos Inválidos do Trabalho. Outros nomes então se destacaram recrutados no meio militar, judicial, alfandegário e alguns comerciantes entre as elites republicanas. E entre eles António José Torres de Carvalho, cuja passagem por Coimbra , apesar de não ter concluído o Curso de Direito, tornou-o um dos intelectuais de referência da cidade não só como editor mas também como político, quase sempre de segunda linha. Foi Administrador do Concelho de Elvas em 1911, entre outros cargos. Mas o seu pretígio intelectual era reconhecido por grandes nomes da cultura portuguesa com quem conviveu , Leite de Vasconcelos, Costa Galopim, Pedro Azevedo, Raul Proença, Vírgilio Correia entre outros. Do ponto de vista sociológico, a participação política das classes populares praticamente só se tornaram visíveis nas movimentações populares que ocorreram em 1911 em Santa Eulália, Barbacena, Vila Fernando e Vila Boim, onde a existência de um "verdadeiro proletariado" rural pobre e próximo da miséria explicava essa actuação. A Primeira República duraria pouco mais que um quarto de século, e as elites pensantes eram da opinião que a república não tinha contribuído para o reforço dos poderes locais, a burocracia condicionava a prática política e as realizações no sector das obras públicas estavam reféns de orçamentos pobres e reduzidos e cada vez mais eram aqueles que consideravam que entre a Monarquia Constitucional e a República não havia grandes diferenças e outros pediam sobretudo ordem e progresso, advinhava-se uma nova ordem política. Postado por Arlindo Sena